Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 09/05/2016

Uma visão da Balança Comercial – CGCE


O país está enfrentando uma das mais graves crises econômicas (e políticas) dos últimos tempo. Há quem diga “nunca antes nesse país…” mas prefiro deixar a análise histórica de lado e observar mais o período recente. O post tem como objetivo uma visão possível das nossas exportações e importações, com o intuito de entender um pouco mais a estrutura produtiva e de consumo do Brasil, segundo a Classificação por Grandes Categorias Econômicas (CGCE).

Segundo a identidade macroeconômica: Y=C+G+I+(X-M), que exprime que o produto Y (ou PIB) pode ser medido como a soma de tudo aquilo que foi consumido pelas famílias e empresas (C), tudo aquilo que foi consumido pelo governo (G), tudo o que foi gasto como investimento (I) e o consumo do resto do mudo por produtos nacionais (X), descontando o que nós importamos (M).

Assim sendo, é fácil notar que se X aumentar e todo o resto se mantiver constante, o Y irá aumentar. Essa constatação é que motiva a frase muitas vezes dita pelos economistas que “… as exportações são um motor do crescimento”.

No gráfico abaixo, vamos a evolução das exportações e importações (medidas no eixo esquerdo) e do saldo comercial (no eixo direito), de 2001 a 2015. De imediato nota-se que houve um aumento do saldo comercial até 2006, período em que o câmbio se desvalorizou e a economia internacional crescia com vigor. O ritmo de crescimento das exportações, em termos gerais, superou o das importações. Em 2006 já aparece um forte crescimento das importações (ainda não suficiente para ultrapassar as exportações), em sinal que o consumo interno já começava a se aquecer (sim, os estímulos pró consumo datam dessa época). Em 2007 o saldo da balança comercial já foi mais baixo e esse movimento terminou em 2014 com um déficit comercial. “Nunca antes na história do país” tivemos um déficit comercial, eu poderia dizer se fosse apenas olhar o gráfico, mas sabemos que isso não é uma verdade. Nesses últimos anos, a situação da moeda mudou, sofremos uma fortíssima correção do câmbio e em 2015, devido mais à redução das importações (por conta da crise econômica), voltamos a obter superávit comercial.

Exp IMp Saldo

“- Ah, então fechou?! Resolvemos o problema!”, diria alguém que apenas observasse o gráfico acima, sem estar necessariamente errado. Mas é importante também conhecer a estrutura e alguns detalhes. Nesse sentido é que olhar o saldo da balança comercial segundo a CGCE (Classificação por Grandes Categorias Econômicas)  se faz relevante (para mais informações sobre a CGCE, clique aqui).

O Brasil exporta mais do que importa principalmente Bens Intermediários. Os Bens de Consumo tiveram maior volume de exportações do que importações até 2008, quando essa tendência se exauriu. É fácil ver que o argumento de que somos autossuficiente na produção de petróleo o combustível é bem fraco. Por fim, apresentamos déficit dos Bens de Capital (BK) desde 2008, o que sinaliza principalmente a dificuldade da indústria em competir com os produtos estrangeiros.

Saldo CCGE - Total

Os Bens Intermediários aos quais me refiro e que são carros chefes do saldo da balança comercial são principalmente alimentos e bebidas, que serão transformados na industria dos demais países (principalmente soja, café, milho e açúcar), e insumos industriais básicos (principalmente minério de ferro e cobre, tabaco e algodão). Ou seja, exportamos matéria prima. Ao observar produtor de valor agregado mais alto, como peças para equipamentos de transporte e peças e acessórios para bens de capital e insumos elaborados, somos importadores líquidos, o que é uma péssima constatação. Exportamos produtos que não empregam muita gente e são altamente concentrados nas mãos de poucos e importamos produtos que poderiam gerar muito emprego e renda no país. Isso é resultado de uma falta de política de desenvolvimento do país (ou uma escolha por uma política, no mínimo contestável, para não dizer “zuada”).

Saldo CCGE - Bens Intermediarios

Em relação aos bens de consumo, os alimentos e bebidas elaborados são principalmente as carnes (bovina, suína e frango ou “flango”), suco de laranja e alguns tipos de açúcar que puxam para cima o desemprenho da categoria. As demais divisões de bens de consumo contribuem de forma negativa. Os bens de consumo não duráveis são compostos, no resultado negativo, por produtos na área da saúde, farmacêuticos, químicos e perfumaria e vestuários. Os bens semiduráveis também incluem vestuários, brinquedos, alguns eletrônicos e aparelhos óticos.

Saldo CCGE - Bens Consumo

O saldo de Bens de Capital é pior por conta das exportações da Embraer (fruto de uma política nacional de desenvolvimento setorial de sucesso), de plataformas de perfuração e exploração de petróleo e tratores. De resto, quase todo o conteúdo de bens de capital tem elevadas cifras de importação.

Saldo CCGE - Bens Capital

Esse retrato não é tão promissor quanto parecia ser num primeiro momento. Nosso motor de crescimento ainda está dependendo de setores concentrados e que não distribuem renda e geram menos empregos do que em setores industriais.


Responses

  1. […] último post sobre Comércio Exterior, “Uma visão da Balança Comercial – CGCE“, foi explorada visão da balança comercial por Classificação por Grandes Categorias […]

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