Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 31/01/2012

Brasil – Uma perspectiva para 2012 (Update Jan/12)

Leia mais: EXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

A última atualização desse blog em relação às expectativas de mercado (em Set/11) apresentou dados mais concretos sobre economia em 2011 e agora já temos muitos dos indicadores consolidados, com exceção do PIB, que deve ser divulgado no início de março. Está claro já e não se escuta mais falar que a economia brasileira cresce ao mesmo ritmo da economia chinesa, como era praxe alguns semestres atrás. Aparentemente, os efeitos da retomada do crescimento pós-crise de 2008 está se acomodando e fica mais fácil agora analisar os números do que antes. Nossa economia talvez não esteja assim superaquecida como se acreditava (com crescimento de 5% ou 5,5% como o governo já tentou sustentar) e, talvez, esteja mais próxima de uma taxa de crescimento de longo prazo (que não deve chegar a 4%), menos da metade da taxa chinesa. Contudo, o cenário é de alguma forma positivo para  2012, ainda mais em termos relativos a outros países, no que diz respeito ao crescimento. O contraponto é que não é animador em relação à inflação. De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 20/01/12, o cenário de inflação (expectativa de 5,3%) se mantém já a muito tempo acima da meta (4,5%) mas já em patamar inferior ao teto de 6,5% e juros podem fechar o ano abaixo dos 2 dígitos (9,5%) que talvez não seja a taxa de juros necessária para combater a inflação. Para os próximos anos a expectativa de inflação acima da meta se mantém, com convergência para meta no médio prazo e a taxa de juros que deve oscilar ainda entre 1 e 2 dígitos entre 2012 e 2013 (lembrando que a pesquisa FOCUS reflete uma percepção de mercado sobre vários indicadores econômicos).

  • PIB

Durante 2008 iniciou-se uma primeira crise mundial, já que estamos em outra agora e pouco tempo se passou. Apesar disso, o Brasil se recuperou rápido dessa crise e apesar de 2009 ter sido um ano fraco (crescimento negativo de -0,3%, que pode-se dizer que é praticamente uma estabilidade, ao invés de crescimento negativo), em 2010, ano de recuperação da crise, o PIB do Brasil cresceu 7,5% (segunda a última divulgação em 02/09/2011) e tudo ia muito bem. Em 2011, aparentemente tudo voltou ao normal e 7,5% era uma taxa irreal para nossa economia, de forma que a expectativa para o crescimento do PIB para 2011 é de 2,84% (expectativa FOCUS em 20/01/12, ver gráfico), o que confirma o argumento que não estávamos crescendo 7,5% ao ano e foi algo bastante pontual. No post anterior (aqui) tentei explicar um pouco melhor isso e segue abaixo a mesma tabela, com atualização do PIB do terceiro trimestre de 2011. Os resultados que foram divulgados com o PIB, pelo IBGE (colunas à esquerda em azul) e outros que não foram divulgados mas que enriquecem a análise (colunas à esquerda em vermelho).

De modo geral, pode-se ver na tabela que a parte destacada de verde para amarelo representa uma desaceleração da taxa de crescimento do PIB, com os resultados já apurados. O resultado acumulado ao longo do ano mostra que o PIB de 2011 até o terceiro trimestre cresceu 3,2%, mas que considerando os últimos trimestres essa taxa de crescimento vem caindo. O mesmo pode ser dito das outras possíveis análises, com exceção da análise da taxa de crescimento dos últimos 8 semestres com relação aos 4 trimestres anteriores, expressa em termos anualizados, que chega a 5,6%. O que isso quer dizer? Quer dizer que as taxas elevadas de 2010 eram bastante elevadas e resultado matemático da recuperação da crise. Isso quer dizer que não teve crise e não teve crescimento forte em 2010?! Claro que não, mas o que se revela mais importante ao analisar o crescimento econômico do ponto de vista da dinâmica que realmente importa não são as variações ao longo dos anos, mas um crescimento sustentado de longo prazo. As oscilações são inevitáveis, mas, por exemplo, ao considerar o crescimento no trimestre em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e o mesmo anualizado, podemos perceber que as taxas de crescimento ficam perto de 1% ou poupo abaixo disso, de forma que a taxa anualizada se situe entre 3% e 4%. Em relação ao crescimento contra o mesmo período do ano anterior, 2,1% de crescimento é um resultado bastante baixo para um país como o Brasil. Ainda, observando os quatro trimestres contra os quatro trimestres imediatamente anteriores, o número encontrado é de 3,7% e declinante. Com isso, acredito eu, podemos criar um intervalo para uma eventual estimativa do PIB potencial do Brasil entre 2% e 4%, com uma média em torno dos 3%. Não adianta dizer que o PIB não é maior só por causa da crise internacional, que inibe as exportações pois o período anterior à crise também não era um período normal, se fosse não existiria crise.

Dessa maneira, ao observar as expectativas de mercado da pesquisa Focus, o resultado da taxa de crescimento esperada para o PIB é de 2,8% e 3,2% para 2011 e 2012. O resultado para 2013 parece começar a cair, exatamente pelo fato da crença de que o PIB potencial possa ser de 4,5% não é a mais robusta e influenciada pelo fato que a crise internacional, principalmente seus desdobramentos na Europa, deve ser mais extensa e de recuperação bastante gradual. As projeções do FMI são de 3% e 4% nos mesmos anos, mais positivas do que as nossas e que da revista The Economist (28/01/12) de 2,9 e 3,3% e do BC brasileiro (segundo relatório de inflação de dez/2011), de 3% e 3,5% mas obviamente não mais otimistas do que as projeções do governo, que projeta algo “superior aos 3 ou 3 e pouco por cento” e 4,5% nos mesmos 2 anos, segundo a última entrevista do Ministro Mantega (26/01/12). Acredito que é bastante difícil sugerir que o crescimento potencial do PIB possa ser de 4,5% mas que seja condicional à demanda externa, pois impulsiona as exportações. Mais fácil seria argumentar que o PIB potencial é em torno de 3,5% e que qualquer oscilação disso viria do setor externo. Caso a demanda interna esteja muito aquecida, será necessário importar, que é o que vem acontecendo, e isso reduz o PIB, mas vale lembrar que se estamos importando, é porque a indústria nacional não é capaz de ofertar seus produtos a preços competitivos, algo a se prestar atenção.

  • Inflação e Taxa de Juros

Compreender as expectativas de inflação é tarefa mais fácil. Para 2011, o IPCA fechou em 6,5%, no teto da meta e incrivelmente no teto, coincidência que até permite algum tipo de imaginação para saber como fechou assim tão precisamente (ou pode-se apenas se surpreender e dizer ” – 6,5%, em cima, que bom”), e para 2012 e 2013, as expectativas estão em 5,29% e 5%, conforme o gráfico, e são ambas acima da meta oficial de inflação que acreditava-se que o Banco Central seguia. Porque seguia?! O BC não segue mais meta de inflação? Como já mencionado no post anterior, não dá pra saber pois falta um pouco de comunicação entre o BC (no sentido de esclarecer qual seu papel e que ações serão tomadas para atingir seus objetivos) e a sociedade, ou talvez a comunicação esteja disfarçada. Disfarçada como? Há um certo orgulho na última ata do COPOM (janeiro/12) em dizer que a inflação de 2011 ficou dentro do intervalo de tolerância, como nos últimos 7 anos anteriores, mas vale dizer que pelo segundo ano consecutivo não se mirou a meta e pelos próximos dois anos não deve-se mira-lá também? Como fica existir uma meta e não buscar a meta? Qualquer funcionário de qualquer setor na economia que trabalha com metas sabe o que acontece quando elas não são atingidas e se esforçam ao máximo para cumprir o que é esperado, com exceção do Banco Central do Brasil, onde parece que não atingir a meta não é problema. Pode-se dizer talvez que o novo intervalo de tolerância da inflação é de 4,5% e 6,5% e que 5,5% é a nova meta?!

Acredito ainda que as expectativas de inflação para os próximos anos devam subir pois é muito difícil prever qual será o impacto do aumento do salário mínimo na economia uma vez que quase 15% de aumento é algo histórico na recente trajetória do país. Segundo a própria ata, o que mais puxou a inflação em 2011 foram os preços livres dos não comercializáveis, leia-se serviços, basicamente. Esse setor vai continuar puxando a inflação pra cima e com certeza já está mirando obter uma fatia desses 15% do mínimo para aumentar seus lucros a custa de aumento de preços para o cidadão comum. É bom pro país, mais lucro pros serviços, o país se desenvolve, cresce, fica mais rico e às custas da inflação, mas não tem problema, basta continuar reajustando preços acima da inflação que o poder de compra real se mantém! Esse pensamento exposto agora é o pensamento geral de muita gente que não percebe que é o caminho para uma espiral de inflação crescente como já tivemos no passado e com duros esforços o real conseguiu vencer. Onde está a responsabilidade do BC em controlar a inflação e impedir erros do passado?

O BC segue baixando juros! Se por um lado é bom juros menores, maior potencial para se tomar crédito na economia, por outro lado vem o endividamento e piora da qualidade das carteiras de crédito, que do ponto de vista do banco pode vir a aumentar juros, de forma que o saldo líquido pode ser tanto positivo quanto negativo ao invés de só acreditar nas beneficies dos juros mais baixos. Bom, se o crédito é farto e posso aumentar meu poder de compra parcelando a prazos a perder de vista e todos meus vizinhos vão fazer o mesmo, o aumento na demanda vai bater em aumento de preços a não ser que a indústria nacional possa suprir a oferta necessária para atender a nova demanda. E ela pode?! Não, não pode, não na medida que precisamos. Os dados referentes ao “Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) na indústria de transformação, calculado pela FGV, sem ajuste sazonal, passou de 84,5% em novembro para 84,1% em dezembro e, assim, ficou 1,6 ponto percentual (p.p.) e 1,2 p.p. abaixo do observado em novembro e dezembro de 2010, respectivamente” (ata do COPOM), que apesar da queda na margem, são números já elevados. Consequência natural, aumento do nível de preços.

“-Ok, acho que entendi, se a inflação está alta, o BC pode aumentar juros pra conter o aumento dos preços” – é o raciocínio esperado. Conforme explicado no post anterior:  “Mas o que acontece se o BC faz o contrário? Como de se esperar, acontece o contrário e o efeito final é uma inflação mais elevada. Então o que acontece quando as pessoas acham que a inflação vai subir e o BC corta juros? Sobe ainda mais a inflação (por isso 2012 também apresenta expectativa de inflação já 1ponto acima da meta). Bom, há que se considerar que o BC pode estar buscando um equilíbrio entre inflação e PIB. Então, qual o PIB que o BC está mirando? Inflação alta (alta no sentido relativo, mas em se pensando que a inflação é uma taxa, a taxa composta de vários anos de inflação alta pode causar um belo estrago é um risco bastante grande) causa inflação alta, se nada é feito, é uma espiral viciosa que nós já conhecemos bem. Imagine que em 4 anos de governo Dilma a inflação seja de 6,5% ou invés de 4,5%, no final do mandato a taxa acumulada seria de 29% ao invés de 19%, no período!”

Então o que as expectativas dizem sobre a taxa de juros? Desde o corte inesperado de 0.5pp dos juros na reunião do final de agosto do COPOM (Comitê de Política Monetária), que tem o papel de decidir sobre a SELIC (taxa de juros base), a expectativa de fechamento da taxa de juros no final do ano e de taxa de juros média estão em queda, tanto para 2012-2013, quanto no efetivo de 2011, que fechou com 11%, na última reunião do ano. O BC chegou ao final de 2011 com taxa de juros nominal de 11% (com inflação de 6,5%, o juros real é de 4,5%) e uma taxa média de 11,78% ao longo do ano. Para 2012 a taxa esperada é de 9,5% a.a., chegando ao tão sonhado juros nominal de 1 dígito (de maneira a ficar consistentemente abaixo dos 2 dígitos). Vale ressaltar que apesar disso, a projeção para 2013 é de 10.25% ao final do ano, de forma que deve existir uma oscilação nos próximos 2 anos que não deve permitir que tenhamos de fato uma taxa de um dígito de forma robusta. Isso é bom ou é ruim? Para inflação isso é ruim, pois representa um relaxamento da política monetária de sucesso até meados de 2010, com direito a período eleitoral e troca de presidência do BC pra começar a desconstruir a credibilidade que o BC conquistou desde a implementação do Plano Real. Para o PIB, listei pelo menos 5 motivos, no último post, pelos quais a queda do juros seria positiva, apesar de existirem muito mais.

A curva dos juros então, apresentada no gráfico ao lado, permite compreender como devem se comportar as reuniões do BC, segundo as expectativas dos agentes. É esperado mais um corte de 0.5p p.p. na próxima reunião, sendo a quinta seguida e mais dois cortes menores, de 0.25 p.p até mais ou menos a metade do ano e, contraditoriamente aos cortes, aumento da taxa em 2013. Qual o sentido de tantos cortes para depois aumentar os juros? Onde fica a tal prudência e cautela esperada nas decisões pelo BC, uma vez que ficar “brincando” de subir e descer os juros não é necessariamente se ajustar às condições de mercado, já que existe um discurso claro do BC e da Fazenda para se chegar ao 1 dígito de forma consistente, que não parece representar a ação do BC. Uma coisa que traz incerteza ao mercado e consequentemente a toda economia é a volatilidade, que é o que está bastante explícita no gráfico.

No mês a mês, pode-se também ver que a inflação esperada para o começo do ano deve ser mais baixa do que nos últimos 2 anos, contudo, já há sinais de que talvez as números não sejam assim tão baixos, o IPCA-15 já está em 0,65%, de forma que é um impacto de 0.1% na inflação no acumulado do ano. Caso os números venham todos acima do esperado na mesma magnitude de erro, o erro acumulado no ano pode chegar a quase 1 ponto percentual a mais de inflação. Já para o resto do ano, a inflação esperada é bastante próxima dos números de 2011, ou seja, dependendo de como o ano começar, o fechamento da inflação pode ser mais alto do que o esperado atualmente, incluindo os impactos não calculados da redução da taxa de juros e política de aumento de salário mínimo, que ambos pressionam a inflação mais do que pressionaram no ano passado, no sentido de aumentar o nível de preços. Ainda a política fiscal não é a mais coerente quando se analisam os discursos e as ações, podendo “jogar mais lenha na fogueira” da inflação.

Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 26/09/2011

Brasil – Uma perspectiva para 2011/2012 (Update Set/11)

Leia mais: EXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

A última atualização desse blog em relação às expectativas de mercado (em Mar/11) apresentou um primeiro rascunho do que poderia ser 2011 e muita coisa mudou desde então. A economia brasileira não é a economia chinesa, ela está superaquecida com crescimento de 4%-5% enquanto no outro país a taxa de crescimento gira em torno de 10%-12%. Apesar disso, o cenário é de alguma maneira positivo para  2011 no que diz respeito ao crescimento, porém, não é animador em relação à inflação. De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 23/09/11, o cenário de inflação acima da meta e até superior ao teto de 6,5% e seguramente juros acima dos 2 dígitos para combater a inflação (ou não) está bastante consolidado para esse ano. Para os próximos anos a expectativa de inflação acima da meta se mantém, com convergência para meta no médio prazo e a taxa de juros ainda dentro dos 2 dígitos (lembrando que a pesquisa FOCUS reflete uma percepção de mercado sobre vários indicadores econômicos).

  • PIB

Em 2010, ano de recuperação da crise, o PIB do Brasil cresceu 7,5% (segunda a última divulgação em 02/09/2011) e parecia uma maravilha de outro mundo mas em 2011, a expectativa para o crescimento do PIB é de 3,51%. Será que caiu pela metade o crescimento do país? Há que se tomar muito cuidado com esse tipo de argumento! A tabela abaixo tenta explicitar alguns resultados que foram divulgados com o PIB, pelo IBGE (colunas à esquerda em azul) e outros que não foram divulgados mas que enriquecem a análise (colunas à esquerda em vermelho).

É possível ver nos valores destacados em verde que, apesar do crescimento chinês de 7,5%, se fizermos uma conta rápida de quanto foi a taxa de crescimento ao ano, considerando os últimos 2 anos, ou seja o 7,5% e o -0,6% (de 2010 e 2009, respectivamente), a taxa acumulada é menor do que os 7,5% e, expressando essa taxa em valores ao ano (a.a.), o crescimento não passou de 3,3%. O que isso quer dizer? É como pudéssemos dizer que no biênio 2009-2010 (ano de crise e ano de recuperação) o crescimento foi de 3,3% nos 2 anos. Ao considerar 2011, podemos fazer uma análise semelhante, mas tendo em mente outras visões. É perigoso ver que o crescimento (seguindo a visão anterior) é de 5% a.a. pois está contaminado com o ano atípico de 2010. O crescimento de 3,1% do 2º trimestre de 2011 sobre o 2º Tri de 2010 é mais “seguro” para tirar conclusões sobre o futuro e mais em linha com o chamado PIB potencial do Brasil. Ao considerar o crescimento do trimestre em relação ao trimestre anterior, temos um crescimento de 0,8% que, anualizado (considera crescimento de 0,8% em 4 trimestres consecutivos) resulta num crescimento de 3,2% ao ano. Considerando o acumulado do ano (2 tris de 2011 / 2 tris de 2010), o crescimento é de 3,6%. Essas diferentes visões e apresentações de um mesmo resultado são sempre usadas de maneira diferente a depender de qual argumento se quer fortalecer, por isso, entender que tipos de análises podem ser feitas de um mesmo resultado é importante para que não sejamos “enganados” ou “ludibriados” quando apenas uma dessas visões é exposta. Podem ter certeza que outras análises (ou tabelas) podem ser construídas e que elas não vão conter toda a informação possível. Assim, ficar refém de uma apresentação de uma só dado deve ser visto com cautela.

Com isso em mente, fica mais fácil entender as expectativas do FOCUS em relação ao resultado do PIB para os próximos anos. O que o gráfico ao lado mostra é que durante 2010, o PIB esperado para 2011 era de 4,5% (o PIB que o Brasil consegue crescer sem ter problemas, uma taxa de crescimento natural). Desde o início de 2011 o crescimento esperado vem caindo para 2011 e também para 2012 (3,51% e 3,7%, respectivamente). Porque? Primeiramente pois o ambiente interno estava muito aquecido e havia uma expectativa de taxas de juros mais elevadas para conter a inflação e isso reduziria o crescimento. Além disso, o cenário externo continuava instável, situação que foi se degradando ao longo do ano e não está nada melhor até agora (cenário externo ruim é prejudicial às exportações, que vai levar a um ritmo menor de crescimento da indústria em geral e agricultura, principalmente no que diz respeito às commodities). Um terceiro ponto que agravava o problema era o câmbio valorizado que também era prejudicial às exportações e incentivava a importação de produtos (que é PIB de outros países e não nosso). Acredito que o Câmbio mereça uma análise a parte que seguirá abaixo, mas um aumento da taxa de câmbio não necessáriamente é tão melhor para o PIB. Acho que é bem razoável que existam outros inúmeros fatores que influenciam a queda do PIB, como alguns anúncios de corte de gastos públicos que foram divulgados ao longo do ano também, mas acho que são esses que consigo pensar agora que tem impacto forte e que tem as expectativas coletadas na pesquisa FOCUS.

  • Inflação e Taxa de Juros

As expectativas de inflação são mais fáceis de entender. Para 2011 e 2012, as expectativas estão em 6,52% e 5,52%, conforme o gráfico, e são ambas acima da meta oficial de inflação que acreditava-se que o Banco Central seguia. O BC não segue mais meta de inflação? Não dá pra saber pois falta um pouco de comunicação entre o BC (no sentido de esclarecer qual seu papel e que ações serão tomadas para atingir seus objetivos) e a sociedade. Desde o final do governo Lula, o BC adotou uma posição diferente daquelas que fez que ganhasse respaldo, respeito internacional e fosse considerado um dos melhores BC’s. Num primeiro momento, por motivos eleitorais, o BC deixou de combater a inflação e isso se refletiu nas expectativas de mercado (a curva de inflação esperada para 2010 e 2011 começa a subir em agosto de 2010) Se o BC não segue a inflação em 2010, uma parte dessa inflação mais alta é carregada para 2011. No governo Dilma tivemos a mudança do presidente do BC e uma nova abordagem ou nova maneira de lidar com a inflação. Como assim? Não existe um discurso claro do BC quanto a isso, mas o governo e principalmente a presidente insiste que o BC e o governo olham para a inflação e olham também para o crescimento. Isso é ruim? Não! É como se fosse um objetivo duplo, mas não existe nenhuma meta (por exemplo, o PIB crescer x% ou a inflação não subir mais que y%). De que adianta ter um objetivo se não existe nenhuma métrica de referencia ou de controle? Nada, só dá margem para aumento da incerteza de todos, pois ninguém mais sabe se a meta de inflação vai ser atingida (para 2013, por exemplo, a expectativa de inflação é de 4,8%, já acima da meta, um sinal que nem em 2013 a inflação converge para o valor definido como meta). Mas então a inflação vai ser mais alta mesmo?

Uma maneira de lidar com o problema é através da política monetária. Se o BC que decide sobre a taxa de juros Selic, diante de aumento nas expectativas de inflação, aumenta os juros, significa que ele está oferecendo às pessoas uma chance de, ao invés de gastar o dinheiro, poupar, a uma remuneração maior do que a anterior e, assim, retira moeda em circulação, reduz a demanda por bens e serviços, reduz o ritmo de crescimento, por consequencia e isso reduz a inflação. Mas o que acontece se o BC faz o contrário? Como de se esperar, acontece o contrário e o efeito final é uma inflação mais elevada. Então o que acontece quando as pessoas acham que a inflação vai subir e o BC corta juros? Sobe ainda mais a inflação (por isso 2012 também apresenta expectativa de inflação já 1ponto acima da meta). Bom, há que se considerar que o BC pode estar buscando um equilíbrio entre inflação e PIB. Então, qual o PIB que o BC está mirando? Inflação alta (alta no sentido relativo, mas em se pensando que a inflação é uma taxa, a taxa composta de vários anos de inflação alta pode causar um belo estrago é um risco bastante grande) causa inflação alta, se nada é feito, é uma espiral viciosa que nós já conhecemos bem. Imagine que em 4 anos de governo Dilma a inflação seja de 6,5% ou invés de 4,5%, no final do mandato a taxa acumulada seria de 29% ao invés de 19%, no período.

Então o que as expectativas dizem sobre a taxa de juros? Desde o corte inesperado de 0.5pp dos juros na reunião do final de agosto do COPOM (Comitê de Política Monetária), que tem o papel de decidir sobre a SELIC (taxa de juros base), a expectativa de fechamento da taxa de juros no final do ano e de taxa de juros média estão em queda. O que isso quer dizer? Espera-se que o BC chegue ao final de 2011 com taxa de juros nominal de 11% (com inflação de 6,5%, o juros real é de 4,5%) e uma taxa média de 11,78% ao longo do ano. Para 2012 a taxa esperada é de 10,75%, não chegando ainda ao tão sonhado juros nominal de 1 dígito (de maneira a ficar consistentemente abaixo dos 2 dígitos). Isso é bom ou é ruim? Para inflação isso é ruim, pois representa um relaxamento da política monetária de sucesso até meados de 2010. Para o PIB, isso é bom, pois: (a) amplia as facilidades de crédito para os consumidores se lambuzarem na festa do consumo (brasileiro não tem costume de poupar, ou os hábitos de poupança são bastante baixos, por isso a crítica); (b) facilita a tomada de empréstimos também por parte da empresas, que podem investir em infraestrutura (ampliação ou construção de novas fábricas), podem adquirir e investir em desenvolvimento de novas tecnologias (que torna o processo de produção atual mais produtivo), podem comprar novas máquinas e bens de capital, enfim, as empresas tornam-se mais capazes de aumentar a produção (i.e., PIB); (c) permite uma nova avaliação de projetos que antes não eram rentáveis vis-a-vis a taxa de juros mas que passam a ter uma taxa de retorno esperado agora maior do que o juros, permitindo aos empresários tirar o dinheiro do mercado de capitais e investir em produção física ou serviços; (d) os juros mais baixo também norteiam o horizonte de investimento do investidor estrangeiro no mercado de capitais, ou seja, para os que achavam que havia muito capital especulativo no Brasil e investimento volátil e de curto prazo, a queda dos juros afasta esse investidor que busca ganho especulativo e torna o capital investido mais “limpo” ou menos volátil pois deve ser um investimento de longo prazo (nesse sentido a queda dos juros reduz a entrada de capitais, que não apenas reduz a apreciação da moeda, mas contribui para a sua depreciação, gerando taxa de câmbio mais elevada).

Como fica a inflação então? A inflação sobe e se a política monetária for mesmo relaxada, sobe ainda mais. Mas não tinha uma história que a taxa de câmbio também segurava a inflação? Sim, existia! Como funcionava? Como o real estava se valorizando, a taxa de câmbio caia e fazia com que o produto estrangeiro expresso em preços domésticos ficasse mais barato. Assim, para competir, os produtores nacionais tinham também que abaixar os preços e, para o consumidor, o efeito final era de preços mais baixo [pode-se pensar em (1) inflação mais baixa, ou seja, uma subida de preços menor do que se não tivesse o produto importado, ou (2) deflação, em alguns setores, no caso, uma queda mesmo nos preços dos produtos]. O que acontece quando sobe o câmbio? O efeito final sentido pelo consumidor será de um aumento nos preços, tanto do importado, quando do nacional pois a nova competição se dá num nível de preços mais alto e o produtor nacional aufere lucro (não que isso seja ruim).

E governo nessa história toda? O governo faz sua parte, diz que vai cortar gastos (para criar a sensação de aperto da política fiscal) mas fica no discurso, uma mera questão de gerar expectativas. O Senado e Câmara dizem que são representantes dos seus eleitores mas ampliam gastos, inflam orçamentos, inventam projetos que beneficiam sua própria classe, votam aumento de salários para si. E o povo? O povo deixa acontecer pois também foi passado na proposta de orçamento aumento de salário mínimo de R$545 para R$620 (aumento de aproximadamente 13,8%). Isso é ruim? Claro que não, é importante que o salário mínimo evolua e permita melhores condições de vida para a população, mas há um descasamento de interesses pois pressão inflacionária e ruim pra todo mundo e quem mais sofre são os que ganham menos. Não queria jogar mais lenha na fogueira da inflação, mas só pra lembrar que PAC, Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil são eventos que pressionam também a demanda e que necessitam de dinheiro público para acontecer. O que isso quer dizer? Quer dizer que pra construir infraestrutura o governo vai gastar dinheiro (ou sejam expansão fiscal). Mesmo para as construções que disseram que não precisam de investimento público, “believe me” o governo vai ter que colocar dinheiro lá, senão não vai sair toda a infraestrutura que precisamos para Copa, por exemplo. Isso quer dizer gastar dinheiro em estradas, aeroportos, estádios e etc. Mais um motivo para inflação continuar em alta nos próximos anos (Só não vale dizer que a inflação está alta por causa dos recentes movimentos do câmbio pois a expectativa já era alta antes disso acontecer).

  • Câmbio

Pela primeira estou escrevendo sobre a Taxa de Câmbio, já que é o destaque da semana. Porque é destaque? Bom, o gráfico que segue mostra bem o recente movimento do câmbio em relação às expectativas, uma subida bastante forte entre o mínimo de 1,53 R$/US$ em agosto e 1,84 R$/US$ até segunda-feira (26/09/2011, tx. de câmbio PTAX800 – compra). O pico alcançado de 1,90 R$/US$ foi muito mais um momento de desespero que foi acalmado pelo BC vendendo dólares no mercado (o que isso quer dizer? Se aumenta a oferta de dólares, cai o preço relativo, como se fosse qualquer outro produto). Apesar das expectativas estarem seguindo o movimento do câmbio, percebe-se que a volatilidade é bastante menor pois, mesmo em momentos de queda, as expectativas mantiveram-se inalteradas.

Mas como fica agora? Com dados disponíveis sobre expectativas em 23/09, a taxa de câmbio esperada para 2011 e 2012 é de 1,68 R$/US$. Isso faz sentido? Bom, muito provavelmente as expectativas vão subir um pouco mais e, se nada mudar no cenário internacional, o cambio ainda pode cair um pouco e fechar em algum valor entre 1,68 R$/US$ e 1,84 R$/US$.

Mais qual taxa de juros? Chute total, 1,76 R$/US$, a média. Porque? Previsão de movimento de câmbio de curto prazo é conhecido por muitos como um “random walk” ou “passeio aleatório”, termo cunhado em virtude da equação    ter sido testada (chame y de taxa de câmbio nominal e um termo de erro aleatório) e comparada com diversas outros modelos de previsão de taxa de câmbio e ter sido o que apresentou melhor poder de previsão. Logo não adianta fazer milagre. Por esse motivo mesmo a taxa de câmbio esperada para 2012 não é muito diferente de 2011 e não é assim tão diferente do valor de fechamento do dólar em 2010.

Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 09/09/2011

A reputação do BC

As recentes críticas em relação à decisão do BC de cortar em 0.5pp a taxa de juros Selic, para 12%a.a. tem um fundamento bastante claro. O que importa de maneira mais relevante não é cortar ou não cortar a taxa de juros, mas a comunicação e a transparência do BC com a sociedade. É importante que os agentes saibam como o BC age e quais suas prioridades, pois isso tudo afeta as expectativas. Se tem uma coisa que ninguém gosta é quando as expectativas são frustradas e isso vale pra qualquer situação. O que isso quer dizer? Quando um carro dá seta para esquerda, espera-se que ele vira pra esquerda e quando isso acontece, a vida continua. Quando o carro vira pra direita e todos esperavam a curva para esquerda, pois já havia sinalizado de tal forma, dai há frustração, quebra de expectativa e dúvidas sobre a capacidade do motorista. A analogia não é das mais originais, mas estende-se ao BC. Longe de dizer que o atual presidente não sabe dirigir o BC, a idéia é apenas que as setas estão confundindo os outros motoristas.

Como assim? O papel do BC até recentemente era o combate da inflação. É assim em todo lugar no mundo? Não, o BC brasileiro era praticamente um dos mais críveis e respeitados pelo combate à inflação, implantou o sistema de metas (atual meta de inflação de 4,5%) e com um grau de sucesso bastante alto perseguiu tal meta, até o ano passado. Apesar de não querer entrar na questão política e visando única e exclusivamente a análise econômica, como as duas coisas andam bastante ligadas, ainda sim preciso abordar de maneira rápida a questão política (e vale a minha visão sobre o assunto, mas cada um é convidado a ter sua própria ideologia). Dado o peso das eleições o BC o ano passado desistiu de uma política monetária mais séria que, como consequência, impactou as expectativas de inflação que não pararam de subir. Mas qual o problema? Acontece que, se eu acho que a inflação vai ser de 6% ao invés de 4%, no futuro, eu tomo ação hoje para pedir aumento salarial mais elevado, ajustar o nível de preços de produtos e serviços mais alto do que antes, tudo para manter o poder de compra relativamente inalterado e “guess what”, a nova expectativa passa a ser verdadeira, pois todos ajustaram os preços para perto de 6% ao invés de 4%. Isso se chama “profecia auto realizável” e o exemplo clássico é dado quando um banco saudável é considerado como um banco podre (uma avaliação errônea) e todas as pessoas correntistas correm ao banco para sacar seu dinheiro antes que o banco quebre. Qual o resultado?  O banco saudável de fato quebra!

Esse resultado serve para tudo? Com a inflação pelo menos, parece ser a mesma coisa. As pessoas formam expectativas sobre os preços, muitas delas capturadas pelo relatório FOCUS do BC, que coleta tais expectativas para uma série de indicadores econômicos. Quando a expectativa de inflação sobe, a chance de a inflação efetiva ser de fato mais alta cresce. Pela pesquisa FOCUS, segue que a inflação esperada para esse ano já chega a 6,38%, bastante acima da meta de 4,5%. Mas tudo bem, diz o BC, pois em 2012 a inflação deve convergir para 4,5%. Bom, se existe uma meta, porque em 2011 não persegui-la? Isso já não adianta, já que em 2010, conforme pode ser visto no gráfico, as últimas 3 reuniões do ano do COPOM não alteraram a política monetária e isso refletiu no aumento das expectativas da inflação de 2011. Mas será que está refletindo na inflação oficial (IPCA)? A inflação medida pelo IBGE já atinge 4,42% acumulada até agosto, ou seja, estamos na meta, mas falta 4 meses pra acabar o ano. Na minha modesta visão foi um erro do BC no passado não mexer em política monetária, mas politicamente falando, a eleição foi ganha pelo PT e pensando assim a estratégia foi válida (afinal, aumentar juros não é uma política popular). O que mais pode ser visto no gráfico? Que a degradação das expectativas começou em 2010 e em 2011 não foi assim tão melhor (uma vez que o BC comunicou que não ia buscar o centro da meta esse ano). O que acontece quando o BC desiste da meta sendo que a meta pauta a existência do BC? Ele perde credibilidade! O que acontece quando perde credibilidade? Ninguém acredita na seriedade do BC.

Recentemente o BC cortou os juros enquanto ninguém acreditava que seria possível. O BC não sabe o que faz? Errado, o BC sabe o que faz e tem muito mais informações do que o mercado ou qualquer outro agente econômico. O problema é que a inflação não está sobre o controle que o BC diz que persegue. Então o que o BC persegue? É isso o que todos querem saber, para poder criar expectativas corretas. Pelo mesmo gráfico é possível ver que a expectativa de inflação para 2012 também está acima da meta e uma queda da taxa de juros não indica que o BC vai combater a inflação. O que isso quer dizer? Será que a meta de inflação para 2012 também não vai ser perseguida? Não dá pra saber pois o BC está se comunicando mal com a sociedade sobre seus objetivos. Nos EUA, por exemplo, o FED não prioriza a inflação como o BC, mas considera também a atividade econômica, de maneira que é um objetivo duplo. Até agora o BC não disse isso de fato, mas é o que parece. Significa que o BC vai perseguir uma taxa de crescimento da ordem de 3,5% ou 4,5%? E como fica a inflação? Não dá pra saber, pois o BC não diz nada. E como formar expectativas nesse cenário? As expectativas se formam em torno de muita incerteza!

Até agora, a inflação mensal de 2011 superou 2010 em todos os meses, mas o BC acredita que em outubro deva começar as abaixar. Eu espero que sim, mas enquanto isso só nos resta criar expectativas num ambiente crescente de incerteza. Há certa desconfiança de que a economia internacional vai perder fôlego e por isso deve reduzir o ritmo de exportações do país. Apesar disso, as importações continuam em alta e a pressão sobre os preços é visível. Continuar a redução de juros não é certo ou errado, mas é um risco de colocar a política monetária e a credibilidade do BC em combater a inflação em xeque. O que pode dar certo? Se a avaliação e a magnitude dos riscos internacionais estiverem corretas, a queda na atividade econômica via exportações pode significar um PIPB mais baixo, se os preços das commodities cair, o PIB pode ser mais baixo, mas isso de nada faz a inflação interna cair. Os preços dos serviços principalmente estão em alta, mas são várias as categorias que pressionam os preços. Acreditar que a volta dos preços dos alimentos em geral, vindo de uma demanda externa mais fraca, vai resolver o problema é um pouco ingênuo, pois o resto vai continuar a subir (segue a tabela que o IBGE divulga os dados do IPCA). Vale lembrar que o projeto orçamentário para o ano que vem prevê aumento de mais de 13% no salário mínimo (que vai pressionar a inflação, como ocorre naturalmente com o aumento da renda), que a queda dos juros incentiva o investimento e o aumento do investimento pressiona no curto prazo a inflação (pois aumenta a demanda por bens e serviços), que juros mais baixo incentivam o consumo (que pressiona os preços) e causam o endividamento das famílias (que não param de crescer e pode aumentar o risco de inadimplência no futuro). Mas os juros no Brasil não tem que cair? Tem! E esse é o momento certo? Talvez não! Eu sou daqueles que acredita, com a informação que tenho até agora, que a inflação vai ficar acima da meta pelo menos até 2014, que a divida pública vai aumentar até a copa do mundo e possivelmente ainda até os jogos olímpicos (talvez de maneira mais regional), que o PIB potencial é de 4,5% só nos próximos anos, mas deve ser menor do que isso num prazo maior, que o Brasil não reúne condições para planejar seu futuro, que a conjuntura econômica vai degradar até as próximas eleições (mantendo a atividade econômica num nível insustentável, mas pressionado pela festa política de forçar gastos), que o trem bala vai ficar pra depois das olimpíadas, que… (∞) … e talvez seja melhor não estender mais a lista. Nas ações do governo eu já deixei de acreditar, mas o BC ainda acho que pode manter a reputação conquistada até agora, basta dar sinais mais claros e se comunicar melhor sobre os objetivos.

Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 27/08/2011

Modelo de Robinson Crusoé Sustentável

Esse post segue ligeiramente diferente do comum já que, preciso me justificar pela demora em continuar a postar e manter o Blog vivo. Dessa vez o trabalho é um pouco mais técnico porém, vou tentar manter o objetivo de tornar a leitura fácil (com um pouco de cálculo e algumas noções básicas de economia). Para que ninguém se desanime antes de ver as fórmulas, vou tentar explicar antes qual a idéia do que segue abaixo. Basicamente o que segue abaixo é um modelo que pode ser encontrado num artigo acadêmico de Levinson*. A hipótese do modelo, que vai ficar clara no final, é que existe uma relação de U-invertido entre renda per capita e poluição. Nesse sentido, para baixos níveis de renda per capita, conforme aumenta a renda, o país gera mais poluição até um ponto que começa a haver incentivos para reduzir a poluição mesmo com aumento de renda, gerando um U-invertido.

Em economia, uma das estratégias mais comuns é começar a tentar entender uma realidade complexa a partir de um modelo inicialmente simples e depois tentar sofisticá-lo. Assim, o modelo mais simples que existe é inspirado numa economia que possui apenas um produtor, que produz apenas um bem e um consumidor,  considera-se também que o produtor e o consumidor são a mesma pessoa. Mas como imaginar algo assim se a economia é tão complexa, existem tantos consumidores, em diferentes países, produzindo e transacionando milhares de bens? É fácil, basta imaginar uma pessoa sozinha em uma ilha deserta e longe da civilização, ou seja, um náufrago que ainda não foi resgatado. Esse tipo de modelagem ficou conhecida como Economia de Robinson Crusoé, depois do famoso livro de 1719, Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, que inspirou o filme “O Náufrago” de Tom Hanks. Com modelos simples assim pode-se tirar importantes conclusões com a utilização de poucas variáveis.

Mas como interpretar essa situação? Imaginem que Robinson Crusoé está na ilha, sozinho e abandonado, e precisa de alimento. Logo, vai atrás dos saborosos côcos da ilha em que naufragou. Simplificando ainda, imagine que os cocos crescem sozinhos sem que nosso amigo precise plantas mais palmeiras. Assim, uma opção de atividade de Robinson é catar coquinho. Além disso, o modelo considera que pode haver poluição ou degradação ambiental. Em que sentido? Depois de consumir o coco e a água, sobra a casca do coco, que pode ser jogada por ai ou pode ser jogada num lugar próprio, como um aterro ou um “lixão” (aqui prefiro pensar num lugar próprio como sendo um vulcão, assim fica tudo mais fácil), sendo essa outra possibilidade de atividade. Quais atividades serão exercidas? Bom, consumir coco pode ser pensado como algo positivo, que dá prazer e sustendo para Robinson e jogar a casca de coco no chão não é a melhor coisa a se fazer porque atrapalha a andar, pode machucar o pé, etc., de maneira que é uma coisa que traz desconforto. Com isso podemos pensar numa função de utilidade (U) para Robinson como dependendo do quanto ele consome de coco (C)e  do quanto de cocos no chão ele joga (quanto mais coco, melhor, e quanto mais casca, pior). Da mesma maneira pode-se pensar em uma função de poluição (P), que é crescente em relação ao número de côcos consumidos (C), mas que pode se reduzir se Robinson tiver um pouco de esforço (E) para subir até o vulcão jogar as cascas de coco fora.  Assim, formalmente, temos que:

Nessa ilha tão cheia de atividades, Robinson pode decidir quanto ele vai gastar de tempo subindo nos coqueiros pra pegar coco e quanto tempo ele vai ao vulcão jogar fora as cascas. Assim, chama-se de M a dotação inicial, que é uma medida de renda (considerando renda como o retorno de alguma atividade produtiva). De maneira geral, Robinson pode ficar descansando e não produzir nada, mas isso não traz utilidade pra ele porque ele gosta mesmo é de consumir coco. Assim, o menu de opções que ele pode escolher é relativo ao quanto de cada uma das 2 atividades ele vai exercer (como ele é o único produtor, C é o quanto ele vai catar de coco e esse também é o “pagamento”, no sentido de renda; e também, como é o único produtor de uma atividade de limpeza E, o pagamento é o ambiente limpo e, logo, igual ao esforço E). A soma das rendas é o quanto ele recebe no total, que é sua dotação. Assim, pode-se escrever:

Ao atribuir uma forma funcional para as funções de utilidade e de poluição, fica mais fácil analisar o problema. Suponha que cada coco gera 1 unidade de consumo e 1 unidade de utilidade e que se ele joga fora a casca pelo chão isso traz 1 unidade de desutilidade. Qual a importância das unidades? Nenhuma, é pra facilitar a conta (já que a utilidade é uma medida bastante subjetiva, mas pode ser comparada relativamente à outra utilidade, ou seja, consumir é bom, poluir é ruim). Suponha também consumir coco gera poluição, mas que pode ser amenizada se ele se esforçar e jogar as cascas no vulcão. Os termos “α” e “β” são referentes à tecnologia em cada uma das 2 atividades (uma função tradicional do tipo Cobb-Douglas). Então:

Tomando as derivadas parciais, temos uma medida de impacto marginal das variáveis. As duas primeiras são triviais. No caso da poluição (2 últimas derivadas): uma unidade adicional de consumo  gera uma unidade de poluição reduzida do quanto ele se dedica à limpeza, ou seja, pode crescer menos do que proporcionalmente; e uma unidade adicional de esforço contribui para reduzir a poluição, na relação descrita abaixo. Assim:

Substituindo a função de poluição na função de utilidade temos que:

Para que Robinson maximize sua utilidade, ou seja, encontre qual a melhor proporção entre alocação de tempo entre as atividades de consumir coco e limpar sua praia, basta maximizar a função utilidade encontrada acima, considerando que as 2 atividades juntas rendem M (rendimento das atividades produtivas) para Robinson. Dessa maneira pode-se montar o lagrangiano L:

Calculando as condições de primeira ordem,

e resolvendo o problema de otimização, chegamos no consumo “ótimo” e no esforço “ótimo”. Os valores “ótimos” são denotados com um “*” após a variável. Note que os valores ótimos são funções dos parâmetros “α” e “β”, referentes à tecnologia (que são exógenos), e  também função da renda M. Substituindo na função de poluição, encontra-se qual o nível de poluição “ótima”, no sentido que é a poluição que Robinson tolera, dado um patamar de renda M. Ou seja:

O que isso quer dizer? A poluição é dita “ótima” pois resulta do problema de otimização, mas não quer dizer que ter poluição é uma coisa ótima. Como assim? Por exemplo, imagine que Robinson comeu um coco, fruto da atividade C, que gera poluição, uma casca de coco. Para alguns cocos apenas, Robinson não teria problema em jogar fora na praia as cascas, mas o lixo vai se acumulando de maneira que, em determinado ponto, fica tão suja a praia que ele começa a se incomodar e passa a levar as cascas pro vulcão. Nesse raciocínio, não teria problema, por exemplo, ele deixar no canto da praia algumas cascas, que ainda não estão incomodando. Ter algumas cascas é poluição, é nesse sentido que se caracteriza a poluição ótima ou aceitável. Note que a poluição ótima (última fórmula) é função de parâmetros exógenos e da renda M.

Para que a análise seja completa, é preciso saber o que acontece com a poluição na medida em que Robinson aloca suas horas nas atividades e altera a renda M. Como assim? Imagine que no primeiro dia de naufrágio, Robinson decida pegar uma praia e não fazer nada. Se não faz nada, não consome nada nem polui, mas fica com fome. No segundo dia resolve pegar um coco e percebe que é bom, é melhor do que não fazer nada, então decide que é melhor aumentar as horas dedicadas a atividade C. Bom, mas quando aumenta C, sabendo que M=C+E, M também aumenta. Assim, como C gera cascas de coco como lixo, em algum momento ele passa a se dedicar também à atividade E, de limpeza. Tanto C quanto E fazem aumentar M. Quando M aumenta, dada a última fórmula acima, tanto pode ser que aumente a poluição, já que ela depende da renda M, quanto pode ser que diminua. Como “α” e “β” são constantes, e o que queremos mesmo saber é como a poluição reage pra mudanças na renda, chame:

,

Assim, pode-se escrever a mesma equação para P* da seguinte maneira,

Você pode estar pensando “nossa, quanto termo grego que eu não sei nem o nome, que coisa difícil”, mas tenha calma! O que queremos mesmo entender é a segunda equação, o efeito marginal de um aumento na renda sobre a poluição. Assim, basta derivar a primeira equação abaixo em relação à renda M, ou seja, os outros parâmetros não atrapalham em nada a notação. Segue que:

O primeiro termo do lado direito da igualdade é Ψ, que é uma constante, assim como quase todos os termos que seguem, com exceção da renda M, que é fruto da escolha de Robinson. O que isso quer dizer? Quer dizer que se a segunda parte for maior do que Ψ, o efeito marginal é negativo, ou seja, um aumento da renda reduz a taxa de poluição; mas se for menor do que Ψ, o efeito é positivo e um aumento da renda aumenta a poluição? Mas como isso se dá? Como analisar? A proposta é analisar 3 casos, considerando 3 diferentes cenários para valores de “α” e “β”, considerando os efeitos de escala. Dessa maneira, a soma dos parâmetros pode ser maior do que 1, igual a 1 ou menor do que 1. Graficamente, temos:

 

 

 

 

Como ler os gráficos? Para cada cenário considera-se um tipo de rendimento de escala para , α+β. Considere no eixo X a renda (M) como sendo o número de horas de Robinson dedicada às atividades produtivas. Assim:

  • α+β=1 ( rendimentos constantes de escala) – Nesse caso, um continuo aumento da renda impacta na poluição de maneira positiva, ou, pelo gráfico 1, existe uma proporção que, quando mais aumenta a renda, mais aumenta a poluição. Pode ser visto no gráfico 2 a inclinação ou taxa de crescimento da poluição, que nesse caso é constante, dado o tipo de retorno de escala.
  • α+β<1 ( rendimentos decrescentes de escala) – Com esse tipo de  retorno, pode ser que ele seja eficiente em se livrar das primeiras unidades consumidas de côco, mas na medida que vai consumindo mais e gerando mais lixo, fica menos eficiente em jogar fora as cascas e vai acumulando lixo na praia. No segundo gráfico, nota-se que a taxa de crescimento varia, mas no final fica positiva e se acomoda em um patamar (a depender dos parâmetros).
  • α+β>1 ( rendimentos decrescentes de escala) – Se isso acontecer, nos níveis iniciais de renda é um aumento da poluição mas, até certo nível de renda. A partir de um ponto onde a poluição atinge um máximo (gráfico 1), é possível ver que a poluição pode decair, ou seja, ficar mais rico e ao mesmo tempo reduzir a poluição/sujeira na praia. Pelo gráfico 2 pode-se ver que a taxa de crescimento da poluição é sempre declinante (quando atinge 0, é o ponto de máximo do gráfico 1). Assim, forma-se um U-invertido.

Esse tipo de relação de U-invertido gerou diversos estudos que identificam que existe, na realidade, esse tipo de comportamento entre crescimento da renda e poluição. A hipótese de existência dessa curva é conhecida como CURVA AMBIENTAL DE KUZNETS (CAK) ou Environmental Kuznets Curve (EKC). Um modelo simples assim é capaz de demonstrar alguma ligação com a realidade. Nesse sentido, caberia entender como se comportam os parâmetros exógenos do modelo “α” e “β”. Um aumento do fator tecnológico na atividade de redução de poluição (por exemplo, a criação de um carrinho de mão para levar as cascas de coco até o vulcão) permite reduzir mais rapidamente a poluição. As perguntas que seguem são: qual a velocidade em que isso acontece; e se a poluição começar a prejudicar o ambiente da ilha (no sentido de poluição não ser apenas cascas de coco, mas todo lixo gerado por Robinson na ilha; e se tiverem mais produtos, qual a nova condição; e se chegar um novo naufrago, será que a decisão de poluição dos 2 habitantes isoladamente é a melhor; existe uma decisão socialmente ótima melhor do que se cada um decidir sozinho; se a função de utilidade mudar, dentre outras.

Esse tipo de hipótese continua a ser explorada pelos economistas, com modelos bastante mais complexos do que esse. Apesar disso, o modelo de Economia de Robinson Crusoé é uma maneira interessante de simular o que pode acontecer. Descobrir quais são os “α” e “β” dos países, por exemplo, requer um trabalho econométrico e pode encontrar diferentes parâmetros para os países, no sentido que alguns poluem mais que outros. Pretendo apresentar mais modelos simples que tratam desse tipo de hipótese mais pra frente, espero que a linguagem não tenha causado dificuldade na compreensão do modelo.

Leia Mais…

Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 11/05/2011

Poder executivo vai ao Oftamologista (II)

Leia também: Poder executivo vai ao Oftamologista (I)

(Personagens fictícios: o Poder Executivo, a Sociedade, o Dr. e a Secretária)
 
Paciente: -Bom dia, eu vim pra uma consulta com o Dr.!
Secretária:- Ah sim, já me lembro do Sr., Sr. Poder Executivo, né?
Paciente:- Isso mocinha, Sr. Poder Executivo do Brasil.
Secretária: – Por favor Sr., pode se sentar o Dr. já vai atendê-lo.  – Er.. Hummm, Sr. Poder Executivo, ai é a mesinha de centro lembra, ai você não pode se sentar, por favor tente as cadeiras ali encostadas na parede. Isso, essas com encosto, sim.
 
(minutos depois …)
 
Paciente: – Bom dia Dr., eu vim pra uma consulta de volta!
Dr.: – Bom dia, como está a sua visão desde a última consulta?
Paciente: – Ah Dr., eu sempre enxerguei bem, né?! Mas olha, vou confessar que está melhor mesmo, assim, melhorou um pouco. Agora já estou vendo perfeitamente. Eu voltei novamente porque você tinha me pedido. Será que já vou poder tirar os óculos? 
Sociedade: – Dr., eu posso pedir pra você olhar para os pés do Sr. Poder Executivo? Olha só, sapato num pé e tênis no outro. Meia de uma cor num pé e de outra cor no outro pé. Se perceber também a camisa está abotoada com os botões nas casas erradas, mas eu não posso falar nada que já sou repreendida. Acho que os óculos até ajudaram, mas Dr., ele ainda não enxerga muito bem não.
Paciente: – Ah, vocês já vão conspirar de novo né, igual da outra vez. Dr., eu conversei com os Srs. Ministros e já me afirmaram que a inflação está abaixando. O IPCA de abril já veio mais baixo, o Dr., que sabe já do IPCA. A inflação caiu de 0,79% em março para 0,77%.
Dr.: – Ah, você quer dizer que a inflação subiu menos, não que ela caiu né? Esse 0,77% ainda é um aumento de preços, que já tinha aumentado 0,79% no mês anterior, isso?
Paciente: – Ah Dr., dá na mesma…
Dr.: – Não dá na mesma não, inflação cair é ela ser negativa, uma redução nos preços, deflação. Eu estou lendo um livro que está me explicando esses conceitos. Sr., Poder Executivo, se o IPCA continuar subindo só 0,02% menos no mês, o IPCA no ano vai ficar só 0,18% mais baixo do que o esperado né?
Paciente: – Dr., mas como faz a conta tão rápido assim? Os Srs. Ministros demoram uma semana pra me responder isso e…
Dr.: – Oras Sr. Poder Executivo, é uma conta simples. Mesmo assim, estava em 3 jornais hoje logo pela manhã a mesma conta. Vamos focar na consulta, pode ser? O Sr. pode se sentar ali naquela cadeira de antes enquanto eu pego aqui os seus exames e … – Não, ai não é a cadeira, ai é lixo, a cadeira é aquela com encosto.
Paciente: – Ah Dr., dá na mesma… – Aqui  né?!
Dr.: – Consegue ler o que está escrito ali na parede? – A partir daqui a gente vai aumentando o grau até você conseguir ver bem, ok? Vamos começar!
Paciente: – Não Dr., não consigo ver nada assim, está um borrão só. – Um grau Dr.? Continua igual, não consigo ver nada ainda. – Ainda não, não, não, não. – Dr., esses 6 graus ainda está meio embaçado. – Acho que agora consigo, está escrito… i… in…fla..ção?!
Dr.: – Sim, você tem passou dos 6,5 graus de hipermetropia. Eu coloquei a mesma palavra pra ver Estamos do lado da parede e você ainda não consegue ver bem. Sabe que mais de 6,5 graus é bem perigoso! Mas vamos trabalhar isso e o tratamento vai dar certo.
Paciente: -Vai dar certo Dr.? Esse ano eu já consigo abaixar o grau?
Dr.: – Não deixemos isso pro ano que vem.
Paciente: – Poxa, todo mundo está me falando isso agora.
Dr.: – Vou mostrar mais algumas coisas agora.

Paciente: – Desenhos! Adoro desenhos Dr.!
Dr.: – Consegue ver o primeiro desenho? – Sim, esse colorido. – O que ele tem demais? – É a inflação medida pelo IPCA. Eu peguei o quanto cada grupo e subgrupo subiu e multipliquei pelo peso dentro do IPCA. Assim eu consigo medir qual o impacto de cada um deles dentro do quanto o IPCA já subiu no ano.
Paciente: – Dr., o Sr. está de parabéns, eu não consigo obter essa informação dos meus ministros assim e também adorei as cores.
Dr.: – Sr. Poder Executivo, o IPCA de 2011 já subiu 3,24% sendo que a meta é 4,5% e ainda faltam 8 meses pra terminar o ano. Só o grupo de transporte contribui com quase 1% disso, ou seja, 30% do aumento da inflação nesse ano veio de transportes, 20% de alimentos e 15% de educação.
Paciente: – Dr., tem o problema das commodities, da especulação dos combustíveis e …
Dr.: -Olha, já tivemos essa conversa, mas vamos ver o resto dos desenhos. O segundo, em cima e à direita, mostra os subgurpos que mais contribuíram para o aumento, mais uma vez. – Não Sr., não é o quanto subiu, é o quanto subiu vezes o peso dentro do IPCA, ai mostra o impacto do item dentro do índice total.
Paciente: -Não entendi o motivo de se fazer isso.
Dr.: – Olha, um exemplo simples. O tomate e o pimentão, o peso no IPCA do tomate é maior pois é um item mais presente na cesta de consumo das pessoas. Se ambos subirem 1%, o tomate vai ter um impacto maior, dada a mesma variação. Então um item que tem peso muito baixo pode subir 40% e não necessariamente impactar forte a inflação!
Paciente: -Ah, Dr., tem isso?
Dr.: – Continuando, por favor Sr. Poder Executivo, parece que dentro dos grupos, tem uma parte do aumento dos transportes que é combustível, mas tem também aumento de tarifa pública, consegue ver? – Ali, olha, a segunda barrinha mais alta, viu? – Outra coisa, parece que a alimentação fora do domicílio teve aumento de preços importantes também mas não necessariamente os alimentos. Ou seja, o custo dos alimentos está subindo menos do que o custo do serviço prestado pelos restaurantes, por exemplo, e eles são obrigados a repassar o custo para o consumidor, por isso sobe esse item. As carnes, que estão expostas ao mercado internacional estão apresentando deflação esse ano e o que está pressionando mais os alimentos é o item de tubérculos, raízes e legumes. Isso não tem a ver com soja, açúcar e outras commodities. Os alugueis também estão aumentando, mas esses aumentam sempre né?! E ainda por cima são indexados, ou seja, se a inflação de um ano sobe, no ano seguinte eles aumentam o mesmo tanto (ou mais) e isso impacta a inflação desse ano também.
Paciente: – Dr., isso está me dando uma dor de cabeça…
Dr.: – Já estamos acabando, nos 2 desenhos de baixo, sabe, pode chamar os desenhos de gráfico, é mais elegante. Continuando, o da esquerda mostra o itens que mais impactaram o IPCA individualmente.  A gasolina subiu mais que o etanol! Sr. Poder Executivo, a gasolina tem apenas um percentual do etanol enquanto o etanol tem, hum, 100% de etanol ou espera-se isso não? Se a Petrobras não mexeu no preço da gasolina, como pode ela ter aumentado mais que o próprio etanol se foi só o etanol que subiu?
Paciente: – Ah, essa é fácil. O governo não controla o preço do posto de combustível, que o IPCA mede, controla o preço da gasolina via Petrobras. Agora se o preço está subindo isso é coisa dos donos de postos, não tem nada a ver comigo. Tem que cobrar deles a explicação!
Dr.: – O Sr. Poder Executivo está por dentro disso né, mas então não tem a ver com as commodities?
Paciente: – Ehr… Hum… Ahnn…
Dr.: – E eu achando que tinha a ver com commodities esse tempo todo… Mas continuando, tem poucos alimentos nesse gráfico, o que preocupa mesmo são serviços, combustíveis, transporte público, planos de saúde, educação, mão-de-obra, energia elétrica. Olha eu assisti ontem no jornal que ainda vem mais aumento de preços na energia elétrica né, parece que foi aprovado mais reajuste.
Paciente: – Ehr… Hum… Ahnn…
Dr.: – Sr. Poder Executivo, o último gráfico, da esquerda e em baixo, são os itens que contribuíram negativamente, ou seja, os que estão segurando a inflação de subir ainda mais. Me parece que tem vários itens de alimentos, não? Não que eles estejam segurando tanto assim. Outra coisa que notei também é que existem muitos itens de eletrônicos, televisão, eletrodomésticos e…
Paciente: – Ah Dr., essa é fácil também, sabe, o câmbio está caindo e facilita a importação de produtos de fora, quem são mais baratos que os daqui. Dai o produtor aqui tem que abaixar o preço também pra competir e dai esses preços caem e fica mais barato mesmo. Isso já acontece faz alguns anos no Brasil.
Dr.: – Ah, por isso então, essa máquina óptica que você está vendo ai é importada também, tava mais barato do que comprar aqui e muito melhor.
Paciente: – É o câmbio Dr.!
Dr.: – Então deixa me ver se entendi, o câmbio mais baixo, indica que o produto de fora fica mais barato pra gente? Dai se o câmbio subir, então acontece o contrario, fica mais caro pra gente e o produtor nacional pode vender mais caro que ainda fica competitivo, né?! Mas dai isso não vai bater na inflação pra cima?
Paciente: – Ehr… Hum… Ahnn…
Dr.: – E se o produto de fora fica mais barato pra gente, o nosso fica mais caro pra eles, porque está mais valorizada a moeda! Dai o nosso produto mais caro lá fora, a gente fica menos competitivo, mas dai prejudica quem exporta não é?! E com o preço do minério, soja, milho, açúcar subindo, esses setores conseguem compensar o câmbio, mas e os outros setores? E ai, como fica? O exportador vendo menos e os custos internos dele, medido pelo IPCA, estão aumentando. Tá sendo ruim pra ele isso tudo né?
Paciente: – Ehr… Hum… Ahnn…
Sociedade: – Dr., acho que você pingou muito colírio já, não?!
Dr.: – Colírio? Não pinguei nada ainda não.
Sociedade: – Então porque os olhos do Sr. Poder Executivo estão cheios d’água?
Dr.: – Ehr… Hum… Ahnn… Vamos encerrar aqui essa sessão. Vocês podem acertar os detalhes com a secretária lá fora. Os custos subiram um pouquinho desde a última consulta, tá?!
Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 28/04/2011

Poder executivo vai ao Oftamologista (I)

(Personagens fictícios: o Poder Executivo, a Sociedade, o Dr. e a Secretária)
 
Paciente: -Bom dia, eu vim pra uma consulta!
Secretária:- Ah sim, qual o seu nome?
Paciente:- Poder Executivo do Brasil.
Secretária: – Pode se sentar o Dr. já está terminando com o outro paciente, você é o próximo.  – Er.. Hummm, Sr. Poder Executivo, ai é a mesinha de centro, ai você não pode se sentar, por favor tente as cadeiras ali enconstadas na parede. Isso, essas com encosto, sim.
 
(minutos depois …)
 
Paciente:- Bom dia Dr., eu vim pra uma consulta!
Dr.: – Bom dia, posso perguntar o que atrapalha sua visão?
Paciente: – Na verdade nada, eu enxergo muito bem! Me mandaram vir aqui mas não sei qual o motivo, eu nunca tive problemas.
Dr.: – Muito bem, você que está de acompanhante do paciente?
Sociedade: – Sim, eu mesma. Faz uns anos já que o Poder Executivo não está enxergando bem, vendo tudo embaçado, vendo coisas que não existem, tem dificuldade pra ver as coisas de perto e de longe também. Acho que o olho da esquerda está um pouco torto, como é o nome, estrabismo né?!
Dr.: – Parece sério! Sr. Poder Executivo, é isso mesmo? O Sr. está com esses problemas?
Paciente: – Olha Dr., isso é a Zelite Intelectual Conservadora que fica falando. Vou te falar que tem um grupinho ai que é sempre do contra e não quer ver o Brasil se dar bem. Tem gente que acha que os pobres não merecem ter casa e televisão. Eu sempre enxerguei bem apesar de nunca ter visto nada (antes) na história desse país.
Dr.: – Sr. Poder Executivo, vamos examinar. – Você pode se sentar naquela cadeira enquanto eu… – Não, ai não é a cadeira, ai é lixo, a cadeira é aquela com encosto. – Sociedade, ele sempre foi assim?
Sociedade: – Olha, faz muito tempo na verdade. De uns 20 anos pra cá parece ter melhorado um pouco, mas voltou a piorar. Não sei mais o que faço Dr., só dá trabalho, me deixa impaciente, nervosa, apreensiva e eu crio expectativas para o futuro baseadas nessa confusão toda que o Poder Executivo faz.
Dr.: – Sr. Poder Executivo, vamos fazer uns testes, tá? Vou colocar esse aparelho na frente dos olhos pra gente ver como está a visão. – Pronto, agora está sem lente, do jeito que você enxerga hoje. Consegue ler o que está escrito ali na parede? – A partir daqui a gente vai aumentando o grau até você conseguir ver bem, ok? Vamos começar!
Paciente: – Não Dr., não consigo ver nada assim, está um borrão só. – Um grau Dr.? Continua igual, não consigo ver nada ainda. – Ainda não, não, não, não. – Dr., 6 graus parece que melhorou um pouco.
Sociedade:  – Inflação! (sussurrando)
Paciente: – Acho que agora consigo, está escrito… i… in…fla..ção?!
Dr.: – Sim, você tem 6,5 graus de hipermetropia, porque estamos muito perto da parede e mal está conseguindo ver o que está na sua frente. Sabe que 6,5 graus é bem alto já!
Paciente: – Dr., na verdade a Sociedade me soprou, não estou vendo tão bem assim, mas melhorou bastante já.
Dr.: – Como você não está vendo? É sério isso? Eu já tirei o quadro da parede e estou colocando na sua frente!
Paciente: – Olha Dr., não é que eu não vejo, mas a gente não pode resolver isso mais pra frente? Ano que vem?
Dr.: – Bom, se não quiser resolver, tudo bem, mas pode piorar ainda mais pra frente! É melhor começar a cuidar agora, eu falo isso como médico, mas é você que decide se quer o tratamento.
Sociedade: – Mas Dr., o Poder Executivo precisa do tratamento, você está vendo que mal consegue caminhar sem que eu esteja por perto dizendo onde pisar e onde não pisar e quanto eu paro de prestar atenção por um minuto já começa a fazer o que não deve.
Paciente: – Dr., Sociedade, eu estou com um desconforto que é aquela coisa de commodities. O preço dos alimentos sobe, dai fica mais caro aqui, influencia a alta da inflação, tem o petróleo que tem a cotação mais alta, o açúcar que faz subir o preço do etanol também…
Dr.: – Mas a inflação é uma alta nos preços né? Tem aquela curva de oferta e demanda de um produto e se aumenta a demanda o preço sobe, se aumenta a oferta o preço cai, é mais ou menos isso não? Simplificando, né?
Paciente: Olha, não sei muito bem, mas deve ser por ai. O que acontece é que tem os alimentos, os combustíveis, tem o …
Dr.: – Mas não tem o IPCA, que mede a inflação? Eu vi outro dia que o item que mais pesou nos últimos 3 meses no IPCA foram os reajustes de tarifa de transporte público, do começo do ano. Subiu quase 6,5% até agora, em várias capitais, isso tem a ver com o os alimentos, combustíveis?
Paciente: – Ehr… Hum… Ahnn.. Mas tem também os alimentos, os combustíveis…
Dr.: – Mas a proposta do Sr. Poder Executivo não é de fazer o Brasil um celeiro mundial? Ser um grande fornecedor de alimentos para o mundo, produzir biocombustíveis, gerar energia renovável, essas coisas?
Paciente: – Mas onde você ouviu isso?
Dr.: – Passou na televisão, o discurso de vários ministros seus, você estava presente, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, estou errado?
Paciente: – Ehr… Hum… Ahnn.. Mas tem também os combustíveis…
Dr.: – Calma Sr. Poder Executivo, fiquei com uma dúvida. Como a gente vai ser produtor mundial assim? Acho que as commodities podem influenciar o preço do milho, soja, açúcar, mas os itens que mais subiram esse ano no IPCA não foram os cereais, foram as hortaliças, legumes, não existe pressão internacional ou especulação em relação ao preço do alface, brócolis, batata tem? Não é questão de plantar mais, aumentar a oferta? Aí os preços cairiam, não?
Paciente: – Ehr… Hum… Ahnn.. Mas tem também os combustíveis…
Paciente: Mas o governo anterior não tinha dito que o Brasil era auto suficiente em petróleo? O etanol da cana-de-açúcar não era um sucesso?
Sociedade: – É, eu me lembro disso, mas não durou muito né, não foi um sucesso pelo visto, mas também o governo anterior adorava falar qualquer coisa, o importante era falar, anunciar, fazer alvoroço, nunca antes na história desse país tivemos um Poder Executivo assim.
Paciente: – Olha, o problema é a demanda que está aquecida e faz os preços subirem, não é só os alimentos e combustíveis.
Dr.: Ontem eu vi que nos primeiros 3 meses do ano o IPCA subiu já 2,44%, se anualizar isso são mais de 10%, é bastante né?!
Paciente: – Dr., por favor, você não pode anualizar o IPCA!
Dr.: – Não? Porque não? O governo faz isso sempre com o PIB!
Paciente: – Oras, o IPCA tem uma dinâmica que faz com que mês a mês a inflação apresenta componentes sazonais. No começo do ano tem influência das chuvas nos preços dos alimentos in-natura, reajustes de escolas e material didático, depois não tem mais, lá pra abril/maio tem safra de cana, tem o inverno que chove menos e fica mais fácil plantar os in-natura…
Dr.: – Mas no inverno também sobem as carnes porque o pasto disponível fica pior né? E o leite e derivados porque as vacas produzem menos no inverno também, foi o que falaram no jornal
Paciente: – Então, viu quanta coisa, por isso não pode anualizar
Dr.: – Mas o PIB também não tem? Normalmente o último trimestre do ano não é mais forte por causa de expectativas com vendas de Natal, essas coisas?
Paciente: – Ehr… Hum… Ahnn…
Dr.: – Bom, eu vou te passar essa receita de lentes para melhorar o problema da hipermetropia, vamos abaixar esses 6,5 graus pois está muito alto. Quero vê-lo novamente na próxima semana Sr. Poder Executivo.
Sociedade: – Obrigado Dr.. Nós já estamos atrasados para a consulta com o otorrinolaringologista.
 
Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 13/04/2011

O problema do etanol

Não tinha certeza de como “apelidar” o título do post, mas não posso discordar que o álcool passou de solução à problema. Como assim problema? Bom, o álcool é um produto derivado da cana-de-açúcar, produto que nós brasileiros estamos à quase 500 anos cultivando. A grande solução veio na forma de usufruir da cana-de-açúcar de uma maneira um pouquinho diferente, não só produzir pinga, mel, açúcar, rapadura, mas também produzir o famoso álcool combustível ou etanol (nome politicamente correto). Agora, o etanol não é uma novidade assim de causar espanto, uma vez que essa estratégia de produção começou em meados da década de 70. Naquela época o programa do Pró-Álcool visava “substituir” ou reduzir (talvez caiba mais o verbo “diversificar”) a nossa dependência da gasolina, uma vez que os choques do petróleo tornavam extremamente custoso a importação do produto.  O programa começou bem, foram vendidos milhares de carros movidos à álcool até que… até que o preço do açúcar começou a subir no início da  década  de 80 e o preço do petróleo começou a cair já em meados da década. Assim, os usineiros que já começavam a deixar de produzir álcool pra focar na exportação do açúcar viram o preço da gasolina começar a cair e o álcool deixava de ser competitivo. O programa do governo desandou e parecia que tinha acabado ai a iniciativa brasileira. A tecnologia do carro flex deu novo ânimo à utilização do etanol como combustível dando a opção ao usuário de escolher entre gasolina ou etanol, a depender da competitividade de cada um (“and there was much rejoicing”).

A solução virou problema (para o usuário, não para os usineiros nem para os produtores de cana-de-açúcar, quando esses não são a mesma pessoa) quando a história do açúcar começou a se repetir. Os preços no mercado internacional subiram e mais uma vez os usineiros, agentes maximizadores de lucro, perceberam que era mais negócio exportar açúcar do que produzir etanol. Do ponto de vista da decisão individual, não há NADA de errado em realizar essa mudança (eu faria o mesmo, você não?). Do ponto de vista do usuário, bom, ai é um problema pois fica refém das oscilações do mercado internacional de commodities. O ponto que considero muito importante é o governo ser um agente que não é racional, uma vez que não maximiza nem lucro nem bem-estar social (cogitei que pode ser um agente minimizador de desutilidade e esforço). Esse agente perdido, primeiro, diz que o Brasil é um país que se vale de recursos renováveis na sua matriz produtiva, incentiva as montadoras a produzir os famosos carros flex, incentiva os produtores de cana-de-açúcar a plantar mais e mais (garantindo um % da mistura do álcool na gasolina), incentiva os consumidores a comprar carros flex e, até aqui, tudo anda bem. Agora, quando o incentivo do produtor/usineiros é maior para exportar açúcar do que para vender o etanol, ai a história toda vai pro buraco. Quem é usuários do etanol como combustível para veículos (afinal, melhor explicitar isso do que dizer apenas “usuário do etanol” e dar margem a uma duplicidade não muito saudável) se sente prejudicado. É fato que os preços oscilam, existe uma sazonalidade devido à safras e entressafras da cana-de-açúcar, mas quando os preços disparam, ai já não é esperado que seja normal.

O que fazer em casos como esse? Há algumas estratégias: (i) já que os usineiros preferem exportar açúcar do que produzir etanol, pode-se diminuir o percentual da mistura de álcool na gasolina, assim o preço da gasolina não precisa subir devido às especificidades do mercado de açúcar, liberando mais insumos para a produção de açúcar, tornando a gasolina mais vantajosa ainda e deixando os postos de gasolina com estoque de álcool sobrando. Assim eles não vão poder aumentar o preço da gasolina e não vão vender etanol…. a não ser que abaixem o preço (afinal os postos de gasolina também abusam nos reajuste dos combustíveis, basta apenas um mercenário aumentar o preço que os outros seguem, isso quando eles não combinam de fazer isso ao mesmo tempo). Com isso a gasolina fica mais competitiva mas, existe o problema da gasolina ser mais poluente que o etanol, logo, um problema de coordenação que o governo tem que interferir. Se essa não é uma estratégia boa, podemos pensar em (ii) estoques reguladores. Essa idéia eu já não acredito ser das melhores já que o governo não seria capaz de executar isso de maneira eficiente porque o governo não é eficiente mesmo. A idéia vai no sentido de acumular etanol nos períodos de safra, quando os preços caem, em grandes reservatórios e nos períodos de entressafra quando os preços sobem vender esse estoque, segurando o preço. Isso criaria uma especulação muito grande, agentes ficariam pressionando até que os estoques acabassem e assim a estratégia não daria certo, afinal a decisão de produzir etanol ou açúcar ainda não foi resolvida. Outra solução (iii) seria a transformação do etanol em commodity (produtos produzidos em larga escala, por diferentes produtores mas com características homogêneas, cotados em mercados mundiais). Assim as cotações (preços) seria muito mais transparentes, é uma estratégia que é defendida por muitos por ser uma solução que passa pelo mercado e reduz o poder dos produtores/usineiros nacionais (não encara o problema dos donos de postos de gasolina, mas joga alguma pressão neles). Assim cria-se um incentivo para que outras grandes empresas que já atuam na área dos combustíveis intensifiquem a atuação nos biocombustíveis, ampliando assim a oferta (uma vez que o grande problema não passa de uma questão de oferta e demanda). Bom, a intenção é boa, mas ai o etanol sofreria não apenas com as oscilações do açúcar mas também com as do petróleo ( já que é um produto substituto em alguma medida, um aumento da cotação do petróleo tornaria o etanol mais competitivo, logo é de se esperar que aumente a demanda e com a expectativa do aumento da demanda, como no curto-prazo as estimativas de produção não mudam muito, ou seja, a oferta não vai subir de um dia para outro, faz com que seja esperado também um aumento de preços lá na frente e com isso as pessoas antecipam esse aumento, resultado prático: sobe o preço do petróleo, sobe o do etanol). Há um ponto positivo entretanto que é o fato do problema da sazonalidade das safras e entressafras serem balanceados com produção nos dois hemisférios do planeta, que possuem as estações opostas e assim sempre ter safra em algum canto do mundo e assim os mercados internacionais poderiam produzir, exportar ou importar na medida que precisarem. Particularmente acho que isso faria o preço do etanol subir no curto prazo e achar um “patamar de mercado” com preços mais elevados do que temos hoje. Uma última estratégia (iv) que posso pensar é a mais polêmica, pois conta com interferência do governo nas decisões privadas (que pdoe criar um desincentivo à produção, mas que pode ser amenizado com outros incentivos), que seria a determinação por lei de um % da colheita destinada à produção do etanol, de maneira a manter os preços em níveis aceitáveis e com muito menos oscilação (pra mais ou pra menos). Isso permitiria também que nos momentos de baixa de preços de açúcar os usineiros destinassem mais produção para o etanol, abaixando o preço para o usuário, tornando o etanol mais competitivo e assim aumentando a demanda, de maneira a não fazer o preço cair  mas não cair tanto, mantendo a lucratividade dos produtores/usineiros.

O que penso é o seguinte: se nos momentos de dificuldade dos produtores dada as condições de mercado internacional, clima, pestes e outros problemas de lavoura, o governo os ajuda aumentando % de etanol na gasolina (e isso favorece a todos), nos momentos de bonança o governo deveria retirar esses incentivos, senão tem gente que está sempre ganhando e outros que não estão, no caso, a maioria, não só os usuários de veículos, mas se vocês pensarem que quase toda produção nacional é transportada por rodovias, sobe os preços dos produtos (aumento de custos), sobe os preços dos serviços (já que as pessoas prestadoras de serviços precisam de mais dinheiro para manter o padrão de vida, aumentando assim o preço dos seus serviços), sobe a inflação pra todo lado, dado o spillover na economia. Mas o governo não sabe bem o que faz mesmo, é tudo muito complexo que é melhor deixar como está, minimizando esforço e desutilidade.

Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 31/03/2011

Brasil – Uma perspectiva para 2011 (Update Mar/11)

Leia mais: EXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

Já faz algum tempo da última atualização desse blog em relação às expectativas de mercado em (Nov/10) e muita coisa se passou desde então: mudança de presidência, novos ministros, anúncios de cortes de orçamento e elevação dos juros (ok, isso não é tanta coisa assim).A economia brasileira não apresentou grandes revoluções nem mudanças de rumo, apresentando um cenário bastante positivo para  2011, contudo repete-se aqui um ponto já mencionado em posts anteriores, que 2011 não será mais próspero do que 2010 (que era uma percepção errônea de muita gente, já que 2009/2010 foram anos de “crise”). De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 25/03/11, o cenário de inflação acima da meta e juros acima dos 2 dígitos para combater a inflação estão bastante consolidadas para os próximos anos (percepção de mercado e um pouco de palpite meu também). Mantém-se a perspectiva que do ponto de vista de produção e PIB, as expectativas não param de trazer um cenário bastante positivo para o país, com menos otimismo para 2011 e algum rascunho do que pode ser 2012.

O Produto Interno Bruto  de 2010 cresceu 7,5%, num “most impressive” e “outstanding”, podendo incluir também o termo “chinese-like growth” (expressões que os mais otimistas gostam de atribuir). Bom, o ritmo chinês é mais forte do que esse, uma média de 10,9% nos últimos 8 anos (o famoso período Lula) enquanto o Brasil ficou num modesto 4%, no mesmo período (claramente um resultado muito bom, mas impossível de ser comparado com a China). Em 2011, é exatamente esse o resultado esperado para o crescimento do PIB pela pesquisa FOCUS (gráfico 1), o que ajuda a fortalecer o argumento de que o crescimento do PIB potencial brasileiro gira em torno de 4% a 4,5% (que é o resultado esperado para 2013, onde 2012 é de 4,3%). Isto é, crescer acima disso, somente com mudanças estruturais na economia e não do jeito que está! Ou seja, isso quer dizer que um aumento do PIB de 7,5% em 2010 é muito acima do que podemos crescer. O que significa crescer mais que o PIB potencial? Numa analogia, mais jovial, seria tomar uma série de latinhas de energético por algum tempo, sem parar, ou seja, quando acabarem as latinhas você terá não só um problema de saúde se abusar, como precisará descansar bastante, porque o corpo vai sentir falta de um estimulante que não existe mais (que foi o que aconteceu nesses últimos anos, em parte, fazendo uma crítica moderada). Mas qual o problema de crescer acima do PIB que de fato conseguimos produzir sem forçar a barra? Bom, o resultado pode ser visto na inflação (e não há como negar esse fato!).

Em 2008, a inflação (medida pelo IPCA, estatística medida pelo IBGE, e uma das bases para tomada de decisão do COPOM) foi de 5,9%, já acima da meta de 4,5%. Em 2009, considerado ano de crise, o esperado era que as pessoas deixariam de consumir e com isso reduziria a demanda agregada e a pressão sobre os preços. Bom, não foi bem assim, a inflação oficial foi de 4,3%, abaixo da meta para o Brasil, mas ainda acima do que é considerada uma inflação razoável para países desenvolvidos (em torno de 2% a 3%). Como 2010 foi um ano de recuperação (e aqui estou abusando dos jargões econômicos de crise e recuperação e definindo anos específicos para isso), era de se esperar que a inflação viesse mais alta, Somado a isso ainda, 010 foi ano eleitoral e sabe-se que política e economia andam de mãos dadas. A inflação no ano foi de 5,91%, BEM acima da meta na minha visão, e por mais de um motivo, citando apenas por cima: a demora do BC em subir juros (acho que ai tem um dedo de política do alto escalão e de estratégia do BC para fechar um período de 8 anos), a disputa e mudança de presidência das instituições (deixando mais frouxo o combate aos problemas na economia e mais improvável a tomada decisões impopulares), a injeção descontrolada de recursos públicos em obras do PAC  e aumento de funcionalismo público, a facilidade de crédito sem mensuração de risco (pública e privada) e a sempre presente especulação, principalmente no mercado imobiliário, que se me lembro bem foi o setor que provocou a última crise mundial. Dado que as instituições consultadas pela pesquisa FOCUS formam expectativas racionais com base nas informações divulgadas e vão corrigindo suas expectativas ao longo do tempo e também na medida que novas informações vão sendo divulgadas. É preocupante o gráfico que mostra a mediana das expectativas de mercado para o IPCA. No início de 2010, a expectativa era que a inflação de 2011 seguiria dentro da meta. Já em abr./10 começou a subir chegando a 4,8% (já acima da meta). Em ago./10 a escalada começou novamente e não parou mais, chegando a 6% a mediada das expectativas do IPCA em 25/03/11 (gráfico 2). Isso quer dizer um aumento no nível geral de preços de 6%, que deve ser puxado pelos alimentos, energia e serviços, que afetam muito o bolso da população no geral. No mês a mês (gráfico 3), a inflação de 2011 já começou mais alta do que a de 2010, o meio do ano a inflação esperada não parece apresentar resultado melhor do que 2010 e apenas no final do ano parece apresentar alguma melhora. E se o final de 2011 for mais parecido com 2010 (no que diz respeito à inflação), seria uma hipótese razoável? Pode-se dizer que no final do ano há uma aceleração de preços? É o que mostra a inflação em 2010, sendo assim, 2011 pode apresentar uma inflação ainda superior a 6%! Como combater a inflação?!

Essa é fácil (a resposta pelo menos é fácil, não a solução). Há a política monetária e a política fiscal, grosso modo. Do lado monetário da política, note que no gráfico da mediana das expectativas de mercado para o IPCA há também as datas das reuniões do COPOM. Desde a escalada da expectativa de inflação de 2011 em ago./10 (uma vez que a política monetária a ser adotada afetaria muito mais a inflação em 2011 do que 2010, pois muita coisa já estava definida), o BC insistiu em 3 reuniões sem tocar na taxas de juros SELIC (IPCA no gráfico 2, novamente; Selic no gráfico 4). Bom, pois isso afetou sim o final de 2010 que contou com uma sazonalidade mais forte do que a média, por exemplo, nos preços dos alimentos. Com isso a expectativa de 2010 subiu bem e foi de fato do que aconteceu. A expectativa do IPCA para 2011 não parou de subir dado que os agentes de mercado perceberam a “não-ação” do BC (que coincidiu com o período eleitoral!) e, mesmo com a nova presidência do Brasil e do BC, que já aumentou em 2 vezes consecutivas a taxa Selic, parece ainda não ter surtido efeito na inflação esperada para o ano (e isso é preocupante). Opinião minha é que se de fato a inflação esperada está nesse patamar é que há um viés para baixo na expectativa da taxa Selic para 12,25% no final do ano (gráfico 5), podendo ser mais elevada que isso, quem sabe chegar a 12,75% (já que 13% poderia ter um efeito psicológico muito forte). O fato dos juros estarem subindo agora é a base dos argumentos acima que o PIB estava acima do crescimento saudável que o país consegue sustentar, de que a inflação está em nível muito mais alto do que a meta (o que preocupa também é que isso não é uma novidade, ou seja, se existe uma meta, o que faz os resultados serem divergentes da meta? Ela não está sendo buscada? É uma fachada? Eu acredito na seriedade do BC, mas são perguntas que podem ser feitas). Do ponto de vista de política fiscal, essa é bem menos séria (na minha opinião). Alguns anúncios têm sido feitos em relação a cortes de gastos que no dia seguinte são desmentidos, o crédito continua sendo motor (energético) do crescimento, usado pelos BNDES e programas do tipo “minha casa minha vida”, que são positivos do ponto de vista de desenvolvimento de infra-estrutura mas negativos pela qualidade de muitos projetos e pela especulação que está sendo criada por esse motivo, sobretudo no setor imobiliário (e isso vai continuar até pelo menos a realização da copa de 2014 e desacelerando até a realização das olimpíadas em 2016 e uma caixa preta depois disso). O último ponto, já tendo cansado o leitor com tanto texto, é o fato do orçamento no Brasil ser autorizativo (se contrapondo ao impositivo), ou seja, um corte no orçamento não significa que vai ser gasto menos, significa que vai ter menos pra gastar. Qual a diferença? Imaginem um orçamento de R$1bi, que quer dizer que o governo PODE gastar esse dinheiro mas, dada suas eficiências e ineficiências, gasta R$800mi, no ano seguinte o governo anuncia que o orçamento é de R$950mi e no mesmo ano são gastos novamente R$800mi. O que mudou no gasto efetivo? NADA! Num terceiro ano, o orçamento cai novamente, para R$900mi, e o gasto efetivo sobe de R$800mi para R$850mi. Isso quer dizer que foi anunciado um corte no orçamento (que existiu) mas que o que aconteceu de fato foi um aumento dos gastos, logo, o contrário do que era esperado pelo público.

(bonito na foto?)

Sem medidas fiscais (principalmente de controle efetivo de gastos, não de anúncios apenas) ou monetárias (por exemplo, de contenção de crédito ou pelo menos de garantia de crédito de qualidade, para evitar possíveis bolhas), a inflação vai continuar alta, a resposta (espero eu) vai ser aumento dos juros (política monetária que depende do BC e não de decisões políticas, como gostamos de acreditar) e isso vai fazer com que o crescimento do PIB seja ainda mais fraco do que os 4% já esperados. De que adiantou crescer tanto antes pra crescer menos depois? Pra ficar com o índice de aprovação em alta? Pra ficar bonito na foto? Bom, 2011 deve ser um ano abaixo do que o Brasil pode crescer já que 2010 foi “forçado”, a inflação continua alta (de que adianta ter salário mais alto se a inflação está comendo ele?), os juros devem subir para conter minimamente a inflação, isso vai reduzir os investimentos produtivos, mas o povo continua feliz!

Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 28/03/2011

O custo da preocupação

Retomando a atividade do blog (que andava meio ignorado pelos seus criadores), o mais sensato seria começar com um post menos analítico e mais aplicado ou ligado ao dia-a-dia. O tema do “custo da preocupação”, se feito um exercício mental, pode dar margem para muitas interpretações e inúmeros exemplos. Abaixo, segue um relato fictício onde qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência ( e para garantir a coincidência, os nomes das pessoas envolvidas foram preservados, vamos chamá-los de “Simon” (S) e “Blume” (B), que são agentes racionais que maximizam sua utilidade dada suas preferências e restrições orçamentárias).

Durante uma viagem entre São Paulo e Ribeirão Preto (que dura na média pouco mais de 3h, dentro do limite de velocidade), já na chegada a calorenta cidade, “Simon” resolveu ligar para casa apenas tranquilizar a família e dizer que a viagem tinha sido boa, sendo já noite no momento. O exemplo de Simon não foi dos melhores, uma vez que ainda estava dirigindo, dando carona para Blume, quando tirou o celular do bolso e fez a chamada que iria mudar sua noite. Como Simon é estudante, tem celular pré-pago e não gosta de falar muito para não gastar os créditos e, como o pai de Simon não é estudante, ele não tem esse problema. Simon querendo apenas avisar que a viagem tinha sido boa, que estava deixando Blume em casa e que dai iria para seu “apê”. Ligou e foi bem direto ao ponto. Apesar disso, o pai de Simon ainda queria conversar, dizer que o Rogério tinha marcado o gol de número 100 e saber se na segunda-feira teria aula, saber se tinha muito caminhão na estrada e se já estava em casa (sendo que Simon já havia dito antes que estava dirigindo). Simon impaciente disse que depois entraria no Skype e conversaria, mas que estava dirigindo e não podia falar muito (claro que também por ser estudante e ter celular pré-pago). Ao desligar, recebeu uma mensagem de sua operadora no celular dizendo que aquela ligação (que durou 2min. e 4 seg.) tinha custado R$5,74 e que ainda restavam R$2,32 dos seus créditos. “Putz, tudo isso”, pensou Simon (e pensou também a restrição orçamentária de Simon), que comentou com Blume. “-Cara, acabei de gastar mais de 5 conto pra essa ligação! Poxa, só para avisar que tinha chegado bem” – disse Simon. Blume, esperto e agente maximizador de utilidade, perguntou por que não esperou mais 10 minutos e chegaria em casa e usaria o Skype. De fato, um bom argumento, mas Simon disse que era só pra dizer que estava tudo bem e tranquilizar a família (ou seja, há uma racionalidade também, mas informação assimétrica por não saber ao certo o custo da ligação interurbana pra SP).

“- Blume, poxa cara, acabei de gastar R$5,00 para tranquilizar lá em casa, mas falei pouco mais de 2 minutos. Caro né?!”. A conversa então seguiu nessa linha. “-Não sabia que custava isso pra uma conversa rápida, por isso liguei, mas se soubesse, de fato, acho que esperaria um pouco mais, chegaria em casa e usaria o Skype, que não custa nada!” – disse Simon (mas claro que o Skype custa, no mínimo a assinatura de internet que cai no final do mês ou o pacote de dados do celular ou a rede wi-fi de algum restaurante/shopping, sempre tem alguém bancando o serviço, é o que eu teria dito a Simon se eu o conhecesse, mas isso não é o foco do post.)

“-Quanto você pagaria então? Qual o valor que você seria indiferente entre ligar ou não ligar?” – perguntou Blume. “-Hummm, não sei, uns 2 reais?!” – disse Simon. Mas qual seria o valor que os pais de Simon estariam dispostos a pagar para saber que estava tudo bem, que não teve acidentes na estrada, que o carro não furou o pneu e por isso demoraram mais para chegar, que tinham parado num Graal (ou outro) para comprar uma água, que não tinham sido assaltados, sequestrados? Qual o custo da preocupação?! (Nesse caso a preocupação de Simon, que queria apenas avisar seus pais, de Blume que também queria dizer aos seus pais que já estava em Ribeirão e das famílias que sabiam que Simon & Blume pegariam estrada num país em que muitas pessoas morrem por falta da atenção de outros motoristas).

Seria possível modelar isso? Fazer um modelinho, estimar parâmetros e mensurar o custo da preocupação? Quais hipóteses deveriam ser assumidas? Quais variáveis deveriam ser testadas? Idéias?

 

Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 19/11/2010

Brazil – Perspective for 2011 (Nov/10 Update)

This blog has been writing about the perspective of the Brazilian economy since sept/09, although it was all in portuguese. I’ll put some effort in translating the last one of these articles about the expected performance of our economy, based on the market expectations ( Focus-Market Readout) and share some opinions with the non-portuguese speakers as well. According to its result, I just might do it more often (and I do apologize for weird constructions and possible translation errors along the post)!

The Brazilian Central Bank (BCB) collects expectations among institutions, the main ones presented here are the GDP, inflation and interest rates expectations. For the last months, little has changed in the expectations of the economic agents. So far so good for 2010 and 2011 will still present a very positive result, milder then 2010 though. It is a wrong perception to believe that 2011 should be better then 2010, because we were recovering from the crisis and blah, blah, blah, because we suffer little in the crisis, mainly in 2009 but we recovered (and I could say) almost all of it in 2010, as it would become more clear in the next paragraph. According to FOCUS (the market expectations gathered by BCB), until 05/11/2010 expectations, the scenario for the official inflation rate (IPCA) over the target (4.5%) and the 2-digit interest rates are pretty much consolidated both for 2010 and also 2011.When we are considering the Gross Domestic Product growth, the expectations don’t stop showing a very positive scenario for the country this year and not less optimistic for 2011, but a more moderate growth.

The market expectations median for the GDP in 2010 points out an outstanding 7.6% growth rate, leading the more enthusiastic to even say that it is a “Chinese-like growth” (very popular expression among those in the government) and a milder growth for 2011, around 4.5% (graph1). Despite the 2010 expected growth rate 3 p.p. (percentage point) higher then one year ago (04/11/2009 – 4.83%), the 2011 expected growth remains stable for the last 12 months, in 4.5%. That means that since late 2009 and during this whole year, NOTHING really changed the perception of the economic agents, there were no improvements in structural conditions would allow us a higher growth, not even the elections campaigns and its outcome changed that. Denying here the Chinese- like growth, China’s GDP growth in 2009 was 9.1% and it is expected from the IMF (October 10 – World  Economic Outlook Report) a 10.5% rate, so we are not so close as some might say. Besides that, comparing the 2009/2010 biennium, the Brazilian GDP growth (-0.19% and 7.6% expected by FOCUS) show a composed 3.6% yearly rate while China shows a solid 9.8% yearly rate (9.1% and 10.5%, IMF projection, respectively), so looking this way, we should not dare yet to talk about Chinese-like growth. How the Brazilian economic performance does looks like against the rest of the world? According to the IMF projections (October WEO), South America should grow 6.3% in 2010 and 4.1% in 2011 (Brazil, Chile and Uruguay contributing mostly for this result). The “Advanced Economies” and the “Emerging and Developing Economies”, there is a 2.7% and 7.1% growth for 2010-11, respectively. For 2011, it is projected more moderate rates, 2.2% and 6.4%, in the same comparison. The World GDP is projected 4.8% and 4.2% for this year and the next after falling -0.6% in 2009 (graph2). Trough these lens, Brazil results are more then positive!

Other economic indicators that we can analyze as well are the inflation and the interest rates. For 2010, it is expected a 5.31% inflation rate (considering the already registered 4.38% year to date inflation, until October), reported by IBGE (Brazilian Institute for Geography and Statistics). Considering the market expectation median for the price index IPCA for the following 2 months, on top of the 4.38%, the inflation will already reach 5.43%. This year was particularly difficult for the economic agents and institutes to get anything right, when it comes to monthly inflation, although I still believe in the full year forecasts, free of season impacts. In the beginning of the year, the inflation surprised everybody, though it was because of seasonal factors, like heavy rains that increased the food prices, specially the vegetables, greenery and fruits, more then the normally expected (graph3). The food prices then came a lot lower then the expected starting on May until august, saving the full price index from a inflation over 6% for 2010 and higher interest rates (SELIC). Despite all, the end of the year is normally more pressured for price increases and the market expectations are still not reflecting it that much. The inflation scenario for 2010 got worse especially after the BCB stopped raising interest rates, taking its time to evaluate the accumulated 2 p.p. raise (shown in graph 4). During the last 2 meetings, the COPOM (equivalent to the FOMC, in the US) has decided to keep the annual interest rate SELIC in 10.75% and, therefore, given the heated demand, the inflation projections are pointing 5.0% rate, higher then the 4.5% target, like this year. What is the consequence of a higher inflation? Well, since next year is not a election year, the BCB might just be more energetic and take more actions to keep inflation under control, if the next elected president Dilma doesn’t want to change the “pseudo-called” independency of the BCB (it is not independent in Brazil, by law, although the presidents are trying to interfere in its business, since BCB has acquired a strong respect internationally). There are those who say that Dilma is more inclined to “development ideas” (or more heterodox) and will increase public expenditure (like Lula did, not only due to social projects, but also the not so well executed infrastructure development package (a.k.a. PAC) and hiring a lot more people). If this is the way to be taken, for sure we can expect more inflation and therefore increases in interest rates to fight that. There are also those who believe on the contrary, that she will take  more conservative measures, making the fiscal adjustments and “put order in the house”, respecting the institutions and the stability legacy of the last 16 years or so. If this is the way to be taken, them, there will be less inflation and then the interest rates can drop to a 1-digit rate. What will really happen? Nobody actually knows, that seen through the lens of the market expectations, or at least it is not yet “priced” by the market (otherwise there would be something reflected on the expectations). It is easier to believe that she will keep the same trajectory, for now. For this reason, the price index evolution should be re-directed to 4.5% (because there is a target, right?!) to keep inflation under control and this puts pressure on BCB to raise interest rates, leading the market expectations median to SELIC to 11.75% by December 2011 (graph 5).

Depending on the elected president’s mood, a lot can change when it comes to interest rates and inflation, that to be determined by her ideas of austerity or expansionary development and the role of the State in the economy, by the economic team and the maintenance of Lula’s ideals (her predecessor and also mentor), now almost a former president. A right or wrong attitude of the president can destabilize the multi-party government (PT has gained elections with the support of PMDB and several small parties), can paralyze the Senate and the Congress and risk the 4-year mandate (almost like what happened in the 1st mandate of Lula, though no one likes to talk about it). The 4.5% GDP growth is more reasonable to believe (a bit more or a bit less depending on inflation and interest rates), since it doesn’t depend that much on the president’s and politics actions but in the belief on the institutions and the society confidence on the future.

Posts mais antigos »

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 32 other followers